Com boicote de Palmeiras, Flamengo e outros grandes, governo adia reunião com os clubes sobre a proibição das bets
Encontro marcado para esta terça (29), às 15h, em Brasília, fica sem data; Lula diz que "os clubes que se virem" e BNDES nega linha de crédito para o futebol
O Ministério do Esporte adiou, na noite desta segunda-feira (28), a reunião que faria com os clubes de futebol nesta terça-feira (29), às 15h, em Brasília, para discutir os efeitos da medida provisória que proibiu as casas de apostas no país. Segundo o Metrópoles, a justificativa oficial foi logística: a data estava próxima demais e não havia voos disponíveis para todos os participantes. A nova data será comunicada pela CBF aos clubes e às federações. O adiamento veio horas depois de vários dos principais clubes do país avisarem que não mandariam representantes.
O ofício de convocação foi enviado na manhã de segunda pelo ministro do Esporte, Paulo Henrique Perna Cordeiro, com a pauta de "fortalecimento dos clubes e do futebol brasileiro", e a reunião contaria também com representantes dos ministérios da Fazenda, do Planejamento e da Casa Civil, de acordo com o Metrópoles. Conforme apuração do Estadão reproduzida por outros veículos, Palmeiras, São Paulo e Santos, além de Chapecoense e Mirassol, da Série A, e Cuiabá, da Série B, decidiram não comparecer; a Federação Paulista também aderiu ao boicote. Corinthians, Internacional e Remo haviam confirmado presença.
Segundo o Estadão, a presidente do Palmeiras, Leila Pereira, e seus dirigentes se dizem abertos ao diálogo, mas consideraram o momento inadequado, a seis dias do primeiro turno das eleições, e o tema "muito complexo" para uma conversa rápida. Um presidente de clube, sem se identificar, definiu o encontro como uma reunião "para confundir". Relatos publicados na noite de segunda apontam que Palmeiras e Flamengo lideraram a mobilização para esvaziar o encontro, e que o Flamengo, de Luiz Eduardo Baptista, o Bap, e o Fluminense, de Matheus Montenegro, também não iriam; Botafogo e Vasco, em recuperação judicial, se consideram menos afetados, enquanto o Corinthians poderia aderir a um eventual plano de socorro.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva endureceu o discurso na segunda. "Nos melhores momentos da história do futebol não existiam bets", disse, segundo o Metrópoles, afirmando que a medida "não traz nenhum prejuízo para o futebol" e que "os clubes que se virem". "Nós já aprovamos a lei que os clubes podem virar empresa. Agora é preciso colocar gente de competência para fazer a empresa", completou. A ideia de socorro também ficou mais incerta: o Estadão havia informado que o governo acenaria com uma linha de crédito de até R$ 20 bilhões para renegociar dívidas, mas o BNDES divulgou nota dizendo que "possui vedação estatutária para realizar financiamento para clubes" e que "não procede a informação de que o BNDES irá operar uma linha subsidiada para esse público".
O tamanho do problema explica a tensão. Em 2025, as casas de apostas pagaram mais de R$ 1 bilhão em patrocínios aos clubes da Série A, e 13 dos 20 times da elite de 2026 têm uma bet como patrocinador máster, entre eles Atlético-MG e Cruzeiro. A MP foi assinada em 25 de setembro, tem força de lei imediata mas precisa ser aprovada pelo Congresso, e dá prazo até 5 de outubro para as marcas de apostas saírem de camisas, placas e estádios; os sites têm de sair do ar em 6 de outubro. Depois do anúncio, os clubes divulgaram um manifesto conjunto falando em "fim do futebol brasileiro".
Nos próximos dias, a disputa segue em duas frentes. No Supremo Tribunal Federal, a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) pediram ao ministro Luiz Fux a suspensão da medida provisória, alegando inconstitucionalidade. No governo, a reunião com os clubes ainda não tem nova data, e o prazo para retirar as marcas das camisas vence na segunda-feira, 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno das eleições, marcado para domingo (4).
Informações de Metrópoles, O Tempo, A Gazeta de Dourados (com Estadão) e Gazeta Brasil.